16 maio 2013

cartas não enviadas

Querido,

Faz muito tempo desde a última vez em que nos vimos. Não que eu me sinta mal por causa disso. Deve ter ouvido conversas fiadas sobre mim e sobre os bares de quinta que andei frequentando. Deve ter ouvido o quanto bebi, o quanto falei, o quanto dancei e o quanto chorei. Você me conhece bem. Sabe que bebo para me distrair, para esquecer um pouco da vida corrida e dos acontecimentos desagradáveis. Sabe que o que falo é o que fica preso no meu "filtro mental", que são as coisas que penso e que não devo dizer. Sabe que quando danço é para disfarçar meus paços trôpegos de tanto álcool já existente na minha corrente sanguínea. E sabe que sempre choro depois de beber uma quantidade considerável, sempre por motivos que nem eu mesma sei dizer. Mas depois de achar que já estava no fundo do poço, já dizia o velho Bukowski, descobri que podia ir ainda mais fundo. Digo isso porque descobri o porque acabou. Porque você não suportava minhas manias e mudanças de humor constante. Não entendia minha alegria por cuidar de animais de rua, já que dizia que eu não conseguia cuidar nem de mim mesma. Não aguentava minha necessidade de liberdade. Não queria saber das minhas crises de choros e nem dizia, nem que fosse só para me acalmar, que ficaria ali comigo e que eu não teria com o que me preocupar. Não entendia também, minhas súbitas vontades de ficar sozinha ou de quando não conseguia ficar um minuto longe de você. Você tinha medo da minha absurda coragem de fazer as coisas sem planejar e sem ligar se dariam certo ou não. Descobri que você tinha medo de mim. E descobri que você não era tudo aquilo que eu queria. Rotina e organização era o título da sua agenda 2011. Rotina não é para mim e minha organização é tão bagunçada como meu armário. Um ano se passou e ainda não entendi o porque eu fui tão cega por ficar com você. Não estou mais no fundo do poço, agora seguro firme o balde para pegar água. Hoje sinto que não fez diferença ficar com você, só aumentou minha experiência de paixões imaginadas. Se me perguntam sobre você, a sensação é de como se você fosse uma pessoa que conheci na rua e nunca mais vi. 

Sem ressentimentos, 
Alice.




P.S.1: Fiquei com vontade de terminar uma carta de Alice.
P.S.2: Alice é uma personagem que vive na minha cabeça.
P.S.3: Parece bobeira, mas tento escrever o que eu sinto que ela sente.
P.S.4: Parece bobeira, mas não considere como bobeira. 

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"Quero desesperadamente ser uma sacudidora de palavras para o mundo."
Markus Zusak


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