19 julho 2013

A moça do bar



O lugar no qual ele mais se sentia inspirado, era naquele bar. Ele achava o bar um tanto quanto arrumado, e não tinha nada de buteco. Arrumadinho, ambiente agradável. Ótimo lugar para continuar seu livro. Ele precisava escolher uma das poucas mulheres para criar um personagem com um amor não correspondido. Talvez aquela magrela e alta que parece modelo. Não, não serve. Modelos ganham para andar sem expressão. Às vezes, aquela que parece uma índia com os cabelos longos sentada no balcão. Entretanto, pelo jeito como o cara grandão colocou a mão na cintura dela, parecia bem provável que ela não estava sofrendo por um amor platônico. Para ele, parecia que não havia nenhuma mulher interessante, até olhar para uma mesa no canto do bar.

A mulher tinha cabelos cor de fogo e escrevia numa pequena agenda, e havia também um pequeno notebook na sua frente. Depois de algum tempo observando-a, Bruno, o rapaz escritor à procura de uma mulher interessante, estava quase desistindo de tentar ver seu rosto. E, então, ela chamou o garçom e pediu mais do que estava bebendo. O rapaz, com cabelo de cachinhos, pode ver claramente aqueles olhos verdes e vibrantes, a boca rosada, a pele clara com poucas sardinhas. Ele era apaixonado por sardinhas, mas não contava para ninguém.

Porém, a mulher de cabelos vermelhos não tinha nenhum traço de desilusão amorosa, pelo menos não parecia. Então decidiu, subitamente, escrever sobre aquela mulher. Independentemente se ela estivera sofrendo por amor, seja fria ou a mulher mais sem cérebro que fosse. Não importa, ele estava disposto a mudar todo o enredo do seu livro para poder escrever sobre ela.

Então a mulher fechou o notebook e a agenda e colocou-os dentro de uma bolsa. Levantou-se da mesa, pagou e foi para a saída. Ficou algum tempo parada na porta, olhou para os lados e, então, saiu entre os carros. E ele precisava conhecê-la.


15 julho 2013

Garçom, por favor...


  Sei que finge não se lembrar mais de mim. Sei que finge não ter tido bons momentos comigo. Você está sentada de frente a sua melhor amiga nesse bar que um dia combinamos de vir conhecer. Não, não estou aqui te seguindo, caso venha pensar isso. Vim aqui conhecer, porque lembrei de ter o dito. Você está com o casaco azul que deixava no meu cabide, para quando precisasse. Está usando a saia que, assim que bati o olho e a vi na loja, logo pensei que suas pernas ficariam mais lindas nela. Lembro que você adorou. E ainda usa o brinco que comprou porque te lembravam meus olhos. Jabuticabas bem maduras.
Você se veste de todas as nossas lembranças e nem se dá conta disso.
Aliás, você está bonita. Espero que seja para você e não para impressionar alguém.

"Quando duas pessoas nascem para ficar juntas, elas ficarão juntas."
Que pensamento errado nós tivemos. Parece-me que não nascemos para ficarmos juntos. Porém, tentar esquecer o que passamos é baixo.
Essa carta, que pedirei ao garçom para te levar, não é por você. É um desabafo, por mim.
Sem mágoas, 
F.

12 julho 2013

Eu vi você


Estou à sua espera, me aprontando. Agora estou me interessando em aprender a cozinhar, e fogão era a única coisa que eu nem passava perto quando ia na cozinha. E, olhe só, já sei até fazer ovo mexido! Estou arrumando a cama todos os dias, apesar de preferir ela bagunçada. Tento não deixar calcinhas no gancho do banheiro. Até aprendi a tirar as pluminhas das roupas.

Lembro da primeira vez que te vi. Você estava atrás de um cara grande e loiro, mas eu vi você. Quase dois anos depois te vi novamente, só que você estava diferente, o cabelo estava diferente. E com a cara lisa. Você é tão mais lindo de barba, fica com mais cara de homem. De meu homem. E foi quase dois anos depois que você me viu. (Não, ainda não acredito que você se lembre de mim na escola.) Não liguei de ver você indo embora daquela festa, mesmo que fosse um pouco cedo. Mas me bateu uma saudade, um sentimento de quero de novo e de novo

Não acho ruim de termos nos visto de novo e de novo. Porque agora estamos aqui, um com o outro. E diferente de antes, hoje eu não gosto de quando você vai embora. E esse seu sorriso?! Me quebra, fique logo sabendo. Seus olhos me hipnotizam e, me iludem, me tirando desta realidade e me levando para outra. Seus beijos me tiram do sério. Estou à sua espera, pois acho que você é a minha pessoa certa.

E mesmo dizendo que não tem vocação para ser um namorado romântico, você consegue me surpreender. A sua personalidade me deixa inquieta e me faz querer ser como você. Faz com que minha cabeça fique transtornada e meus pensamentos confusos. Você faz com que eu me sinta feliz, independente do que aconteça no meu dia inteiro.

Estou à sua espera, porque preciso de alguém chato o bastante para me encher o saco, sempre.

08 julho 2013

Nossos tons


Acordar. Escovar os dentes. Tomar café da manhã. Por roupa. Ver se há cartas. Cartas não tem, tem um bilhete jogado debaixo da porta. Desdobrei o bilhete que não estava dobrado milimetricamente correto. Sempre que recebo algum papel, procuro quem foi que mandou, mas este não dissera de quem era e não precisei de pista nenhuma para saber o remetente. Reconheceria aquela letra em qualquer lugar. Sentei no tapete encostada no sofá. Na frente, uma mesinha de centro e em cima dela, um carrinho de brinquedo. Para ser mais exata, um fusca bege que ganhei de alguém por ser um dia qualquer, que ganhei porque ele se lembrou de mim. 

E então, li o bilhete. As lembranças foram voltando devagarinho. Primeiro, foi de quando nos conhecemos. Um tirando o outro para ver quem seria o mais engraçado. Às vezes, ficávamos empatados. Em seguida, lembrei da primeira vez em que percebi o olhar diferente dele. Não foi aquele olhar de desafio que fazia na disputa de tiradas, foi uma coisa mais... desejo e um pouco de vergonha, definiria aquele olhar. Logo, tínhamos, praticamente, os mesmos amigos e saíamos para os mesmos bares. Lembrei de quando estávamos todos em uma mesa, bebendo, e chegou aquele guardanapo rabiscado. 

Que tal sairmos um dia
para treinarmos nossas tiradas?
(  ) SIM     (  ) NÃO

No dia, segurei para não morrer de rir. Talvez aquilo fosse uma piada e ele me zoaria para o resto da vida se eu respondesse um "sim". Mas percebi que ele não queria que alguém visse e decidi arriscar. Então, discretamente, peguei minha caneta dentro da bolsa, fiz um X no sim e escrevi meu número. Ele mandou de volta com um O.K. debaixo do número. Tenho o guardanapo guardado até hoje.

Depois disso, tudo mudou. As tiradas em frente aos amigos sempre tinha um pouco de nós dois, mas ninguém entendia. Ele me mostrou suas tradições e eu mostrei um pouco da minha liberdade. Fui conhecer a casa dele (bem diferente do meu apartamento, por sinal), mas não gostei daquelas paredes todas brancas. Fiz um "papel de parede" na parede da minha sala, é todo com recortes de revista. No meu quarto são fotografias coladas na parede e alguns desenhos. Vou colorir a vida desse cara, pensei.

Éramos melhores amigos agora, sabíamos tudo um do outro, ou achávamos que sabíamos. E aquela parede sem cor ainda me incomodava. Certo dia de tarde, cheguei na casa dele, sem avisar, com alguns quadros, imagens de vários tamanhos, tinta e pincéis. Ele ficou sem entender. Joguei um pincel para ele, arrumamos jornais para colocar no piso e começamos a pintar a parede da sala dele de verde com tom de cinza, até hoje não sei que cor é aquela. Mandei ele escolher algumas imagens, coloquei nos quadros e, depois que a parede secou, pregamos num círculo imperfeito. Discretamente, peguei uma caneta de escrever em CD e fiz um pequeno coração no cantinho da parede. Fico imaginando se ele já viu.

Sem muitos detalhes, sinto a falta dele. Sinto falta dos recadinhos que ele sempre me mandava por debaixo da porta do meu apartamento. Sinto falta da nossa amizade. Sinto falta até das tiradas. Entretanto, nosso namoro não deu certo, isso nós dois sabemos. Sua tradição prendeu minha liberdade, e por mais que eu gostasse mesmo dele, isso não me agradou nada. Minha vontade de mudar tudo que não tinha cor nem graça o assustava um pouco. E nem tudo que a gente não gosta, muda.

Acordo com seu sorriso em minha mente todos os dias.

Nossos tons não combinam mais. Nos falamos muito pouco, quase nada. Arranjamos outros amigos, outros bares e, talvez, outras cores. Os erros nos fazem aprender a diferenciar o que realmente é certo para nós, nos fazem mais maduros. Me pergunto se ele pintou a parede de outra cor, se colocou novas imagens nos quadros, se ele tira alguma outra pessoa. Nosso tempo juntos foi bom, aprendi a tomar café e comer ovo mexido. Aliás, aprendi a cozinhar algumas coisas.

Não queria escrever muito sobre ele para que não houvesse recaídas e eu fosse na porta da casa dele mandar um bilhetinho também. E mesmo sabendo que ele não vai ficar sabendo, eu acordo com aquela risada escandalosa dele todos os dias.

02 julho 2013

À procura de alguém



Estou no bar à cinco quarteirões de casa às onze da noite de uma quinta-feira escrevendo nesse pequeno diário disfarçado de agenda. As pessoas vivem dizendo, de pessoas em barezinhos, o seguinte clichê: Copos cheios, pessoas vazias. Discordo plenamente. É certo que meu copo está sempre cheio, mas não sou vazia. Talvez eu seja uma exceção. Na verdade, estou é cheia. Cheia de conversas que não levam a lugar nenhum, cheia de tentar agir certo e não conseguir, cheia de ninguém me levar a sério.

Enfim, pessoas vão a bares para encontrar outras, não é esse o objetivo? Espero que sim. Estou procurando alguém. Na verdade, estou procurando à mim mesma. Sinto que não estou mais sendo eu, que estou me escondendo por detrás de meus personagens. Ou talvez eu tenha mudado. Como dizia a música do Engenheiros: "Antigamente eu sabia exatamente o que eu queria fazer". Hoje já não sei nada. Não sei quem sou, nem sei se é isso mesmo que eu quero. Acho que preciso é de alguém, não de mim.

Um cara com cabelos cacheados e castanhos está olhando para mim. Escreve algo no laptop e levanta os olhos na minha direção. Provavelmente há alguma mulher sentada atrás da mesa onde estou. Acabo de dar uma olhadela disfarçada para trás. Só há homens. Ou ele está realmente olhando para uma mulher com cabelos bagunçados, jeans e rasteirinha ou ele é gay.

Como dizia, estou à procura de alguém. Preciso de algo que me mude. Que transforme meus objetivos e sonhos. Algo que dê um rumo pra minha vida. Assim não dá, preciso de sorrisos e pessoas diferentes. Ver o mundo de um modo diferente. Acho que vou voltar para minha casa à cinco quarteirões daqui. Talvez eu faça um caminho diferente, vai que algo no universo muda com a minha mudança. 


To be continued...